Noturno
Mario Quintana
O gato, que mora no mundo
para sempre perdido do
cinema silencioso,
atravessa o país do tapete, onde se
abrem flores falsamente tropicais.
No pé da escada,
por força do hábito,
a avozinha morta
começa a tricotar
mais um pulôver.
Por trás de suas barbas, no retrato da parede, o olhar do
avô indaga: - para quê?
De repente, na copa,
o refrigerador compõe ruidosamente
a garganta,
enquanto estremecem de medo os frágeis
habitantes do porta-cristais:
- Meu Deus, meu Deus, ele
agora vai fazer um discurso!