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:: 27 de fevereiro, 2008 ::


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Se o coração devassasse os mistérios
e conhecesse a origem da vida,
tal qual é, na realidade,

ele decifraria também,
após a morte,
o enigma dos deuses.

Homem,
das existências no Universo
tu nada sabes,
embora ainda estejas animado
pela força da tua alma.

Que poderás tu saber
amanhã,
quando morreres,
e a tua alma morrer contigo?

Amanhã,
quando acabares,
e tudo acabar,
para sempre,
para sempre?

Omar Khayyam



:: 19 de fevereiro, 2008 ::

Prece

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Senhora
das feras
e esferas

Senhora
do sangue
e do abismo

Senhora
do grito
e da angústia

Senhora
noturna
e eterna

- escuta-nos

Orides Fontela



:: 13 de fevereiro, 2008 ::


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TALVEZ me vá sucedendo
em mim mesmo.
Não sei quem
mas alguém morreu em mim.
Também ontem
cheirava a desaparição
e estava ameaçado pela luz,
mas hoje é outra a faca
diante dos meus olhos

Não quero ser o meu próprio
estranho, estou entorpecido
pelas visões. É difícil
pôr luz todos os dias
nas veias e trabalhar na
retracção de rostos desconhecidos
até se converterem em rostos
amados e depois chorar
porque vou abandoná-los ou
porque eles me vão abandonar.

Que estupidez ter medo
ao limite da falsidade
e que cansaço
abandonar a inexistência
e morrer depois
todos os dias

Antonio Gamoneda



:: 04 de fevereiro, 2008 ::

O LIVRO

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Quando tocares num livro, fá-lo com subtil delicadeza.
Ao abrires as suas páginas, desliza os dedos ternamente.
Ao leres, vislumbra os sorrisos e as lágrimas que lhe correm.
Não o rasgues, não o machuques, pois que a dor lhe dói.
Procura desvendar com os teus olhos todos os seus mistérios.
Depois, generosamente, acolhe-o no frescor dos teus encantos.
Acaricia o seu corpo com brandura, e recolhe-o ao peito.
Adormece-o a sonhar ao calor dos teus delírios.
A cada novo amanhecer, diz-lhe: Bom dia!
Pois todo o livro tem alma.
Todo o livro tem coração.

Katia Drummond
Em outono português. Sintra 2005.