
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Mário Quintana

Nascer é acordar a cada dia,
sabendo que nisso está o milagre.
Nascer é perceber a vida
sempre de um modo diferente.
Nascer é Revelar. Revelar é reviver.
Nascer é saber esperar sem ódio.
É entender de rega, poda, criança e passarinho.
Nascer é ter os olhos bem abertos e mesmo assim prosseguir.
É saber a hora do afago e da reprimenda.
É descobrir primeiro em si e só depois nos outros.
Nascer é abrir o coração e a inteligência
para receber o que foi de humana tessitura feito:
no escárnio ou no aplauso.
Na cara virada ou no sorriso natural.
No ódio ou no amor.
Nascer é meditar.
Ir fundo nas regiões do próprio silêncio
e sombra, sem medo.
É saber-se menor, reduzido, torpe, invejoso, cabotino.
Mas é canalizar seu impulso negativo
para a criação e a colheita.
É ser capaz de amar-se
exatamente a partir do próprio conflito.
Nascer é não ter idade para a Revelação.
É dizer erro, faço, aceito, minto, busco,
possuo, vou, quero, hei, para um dia,
entre suspiro de alívio e redenção,
dizer sou, creio.
Nascer é continuar.
Cada vez que a justiça se faz,
algo nasceu.
Nascer é nascer, ora,
e aqui estou na busca (busco) de frases
e palavras sobre o nascer que é o Natal,
símbolo de um Espírito
que veio para salvar na forma de Homem.
E aqui está este pobre cronista
a se espremer na véspera do Natal para tentar
sem conseguir, dizer algo diferente,
original e seu,
não tem palavras nem originalidade
para expressar o simples e o Eterno.
É que o Eterno não é verbal.
O cronista não sabe se fala
do Natal injusto com os que sofrem
ou do Natal da fraternidade.
Acentuando o que o faz perplexo
ele apenas pode constatar (e já é tanto!)
a Dimensão maior, a Totalidade, a Unidade.
O Eterno. Cuja busca faz nascer, eis o Natal.
Eis o Cristo. Sempre novo porque
Permanente.
Artur da Távola