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:: 31 de agosto, 2007 ::

Medo de Morrer

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Do lado de baixo do espaço
na curva da quebra da vida,
existe um laço.
Engomado,entretelado
e de ponta caída.
Se puxada,
ela conta a estória
do lado da sombra,
essa desconhecida.
Pressinto-lhe a forma,
cheiro-lhe a goma
e me assoma a idéia
de fugir de medo.
Quero o lado da luz,que ainda é cedo.
Não vale o laço romper e desatar
e revelar sequioso seu segredo.

Flora Figueiredo



:: 19 de agosto, 2007 ::

Soneto Sentimental

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O que você chama de amor é isso?
Essa perda do parco tempo e espaço
que ainda te restam, este desperdício
de esperma? Esse viver sempre em compasso
de espera, sempre com o mesmo desfecho
que te faz dar o que te falta mais?
Que amor mais besta - uma espécie de peixe
palerma, que nada, nada e não sai
do lugar - é isso? Esse diz-que-diz
que não te deixa louco por um triz
e só te inspira mesmo ódio e horror?
Que te machuca tanto que no fim
não dá para perdoar? É isso? Sim,
é isso que você chama de amor.

Paulo Henriques Britto.



:: 08 de agosto, 2007 ::

Vocação para a felicidade

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Não escreverei versos chorosos
cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis,
saudades dolorosas,
paixões trágicas
e não correspondidas.

Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza
para justificar a inutilidade da vida.

Não preciso morrer e
ir ao céu
para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a
neste espaço terreno
do aqui e do agora.

A felicidade,
tal e qual, o amor
está dentro de mim
e transborda
em ternuras,
em melodias,
em carinhos,
em alegrias,
em cantos e encantos.

Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz .

Faço minha estrela brilhar
sem receio dos encontros, desencontros, encantos e
desencantos que o amor me diz.

Contrariedades? Eu as tenho!
E quem não as tem na vida secular?
Escassez de dinheiro?
Nem é bom falar.

Amores não correspondidos?
Separações?
Rejeições?
Saudades incuráveis?

Carinhos reprimidos,
ternuras guardadas, sem a contra
parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas,
necessárias ao meu crescimento.

Contudo quem não soube
a sombra
não sabe a luz.

E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas insolúveis,
com as respostas nas últimas páginas.

Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?

Sem medo de ser feliz
vou por aqui e por ali...
Por onde os caminhos,
as trilhas,
os atalhos me levarem ,
traçando meu rumo.

Às vezes com alguma tristeza
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea
falta de alegria!

É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
e quando a infelicidade
passar por aqui,
minhas malas estarão prontas
para eu ir por ali.

Carlos Drummond de Andrade



:: 01 de agosto, 2007 ::

Há doenças piores que as doenças

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Há doenças piores que as doenças
Há dores que não doem,nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras
Há anagústias sonhadas mais reais
Que a vida nos traz,há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida
Há tanta cousa que sem existir,existe
Existe deoradamente
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas
Por sobre a alma,o adejar inútil
Do que não foi,nem pôde ser,e é tudo
Dá-me mais vinho,porque a vida é nada

Fernando Pessoa