SAUDADE..

Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
Dói morder a língua, dói cólica,
cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta
que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu,
do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo,
que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida
é a saudade de quem se ama.
Martha Medeiros

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
Manoel de Barros
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peça no seu usuário.
Rifa-se um coração que, na realidade,
está um pouco usado, meio calejado,
muito machucado e que teima em
alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente, que nunca desiste de
acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim
Maia estava certo quando escreveu...não quero
dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu
espero...
Um idealista...um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece e mantém sempre viva a esperança de
ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo
louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e
emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os
mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes, revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre
sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por
quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer
viver intensamente, contra indicado para os que
apenas pretendem passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem
armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que,quando parar de bater, ouvirá o seu
usuário dizer para SãoPedro,
na hora da prestação de contas:
-"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo, só
errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco
coração de criança que insiste em não endurecer
e se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro, que
tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto
o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que
incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras
que ainda não foi adotado,
provavelmente por se recusar a cultivar
ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio
ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora
do mercado, faz questão de não se modernizar mas,
vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar
seus segredos e a ter a petulância de se aventurar
como poeta.
Clarice Linspector

Chega de ficar quebrando a cara
com os velhos erros de sempre!
Quero cometer erros novos,
passar por apertos diferentes,
experimentar situações desconhecidas,
sair da rotina e do lugar comum.
Esse ano eu preciso crescer!
Chega de saber a saída
e ficar parado na porta,
ensaiando os passos
sem nunca entrar na estrada,
esperando que me venha
o que eu mais preciso encontrar.
Esse ano, se eu tiver que sofrer,
será por sofrimentos reais
-nunca mais por males imaginários,
preocupado com coisas
que jamais acontecerão!
Chega de planejar o futuro e tropeçar no presente.
Chega de pensar demais e fazer de menos.
Chega de pensar de um jeito e fazer de outro.
Chega de O corpo dizer sim e a cabeça não.
Chega desses intermináveis conflitos que
me fazem adiar para nunca a minha decisão.
Este ano eu vou viver!!
(Vinícius de Moraes)