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:: 30 de novembro, 2006 ::

Urgentemente

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É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade



:: 26 de novembro, 2006 ::

Cada Qual

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Cada amor
é outro recomeço.
Para alguns
tropeço.

Cada corpo é um princípio,
para alguns a porta
do precipício.

Cada vida penetrada
é um edifício,entrada
que pode dar
numa cidade de mil portas
ou,então,em nada

Afonso Romano de Sant'Anna



:: 16 de novembro, 2006 ::

A Palavra Impossível

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Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro 1908/1972



:: 13 de novembro, 2006 ::

A Magnólia

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A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

Luiza Neto Jorge (1939-1989)



:: 09 de novembro, 2006 ::

Poema de dois versos

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Você que é tão bonita e, às vezes, triste,
será que ainda acredita que esse amor,
que agora descobrimos, só existe
porque quisemos muito que existisse?
Não vê que ele já estava, antes do mundo,
a esperar que os olhares se encontrando
fulgurassem, por fim, numa centelha
que nos tornasse o par que sempre fomos?
Deus brincou com nós dois porque sabia
que era questão de tempo estarmos juntos,
seres iguais, no amor se completando,
como os versos completam uma poesia.

AlbertoCohen



:: 06 de novembro, 2006 ::

Dor

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A mão se fecha
você se crispa
em dor.

Você se crispa
a dor se abre
em flor:

e você não sabe
na terceira pessoa do singular
porque realmente sofrer
essa dor plural.

Álvaro Pacheco



:: 02 de novembro, 2006 ::

SONETO

te amei como nunca.jpg

Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras,
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranqüila...

É tanta a glória que nos caminha
Em nosso amor de seleção profundo,
Que (ouço de longe o oráculo de Eleusis)

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses...

Raul de Leone