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:: 30 de outubro, 2006 ::

Depois da tempestade!

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Depois das grandes tempestades em nossas vidas,
às vezes, ao invés da bonança esperada
,costumamos fechar a alma para balanço.
E por mais que digamos estar disponíveis ao diálogo,
bem no fundo do nosso coração colocamos uma porta.
É como se nossa casa tivesse sido saqueada
e o medo de que fosse arrombada de novo
não nos deixasse viver sossegados.
Visitantes cadastrados até poderiam chegar ao jardim...
mas passar da soleira, quem disse?
E ficamos tantas vezes nos perguntando,
o porque de ninguém se aproximar muito de nós
se pensamos, numa atitude de bloqueio à verdade,
que estamos dando espaço para que todos nos visitem?
E esta porta fica tão trancada,
que se nós mesmos não a abrirmos,
tornar-se-á quase que intransponível.
Fingimos não enxergar o letreiro de passagem proibida?
ou os cadeados enormes que colocamos nos portões
e nos muros que erguemos ao redor de nós,
porque é duro admitir que temos medo de mais experiências
depois que uma, duas, três ou mil delas não deram certo.
Mas se só as pessoas sensíveis enxergam esse bloqueio
e elas são cada vez em número menor,
as não tão persistentes se afastam,
com medo de que soltemos os cães bravos
em cima delas e as ponhamos para correr!
Assim acabamos, por comodismo,
ficando com as pessoas menos perigosas;
com aquelas com quem sabemos
que nunca chegaremos a ter envolvimento maior,
até porque sua percepção não é tão aguçada
para penetrar no nosso interior.
Ficamos com aquelas com quem temos menos afinidade
e pouco cumplicidade,
principalmente aquela que vem do fundo da alma...
Porque não queremos que ninguém invada
a fortaleza inexpugnável dos nossos segredos,
onde guardamos as mágoas, os ódios não passados a limpo
e os amores mal sucedidos.
Não queremos saber de quem nos leia pensamentos
e não pretendemos nos prender a nada,
embora digamos sempre o contrário...
Embora saibamos que a falta das amarras num porto '
onde poderemos atracar quando estamos à deriva,
pode constituir uma bela teoria de liberdade,
mas não nos gratifica, pois o ser humano não nasceu para ficar só.
Nós, hoje, bem ou mal, podemos escolher nossos amores e amigos.
E que possamos escolher os melhores, e não os mais cômodos.
E que possamos, também, ter alguns inimigos e,
entre os nossos conhecidos, pessoas incompatíveis conosco,
porque são eles que nos ajudam a superar os nossos limites
e nos botam para frente, nem que seja para que lhes mostremos
do que e o quanto somos capazes.
Precisamos ter histórias para contar,
sejam elas com finais tristes ou felizes.
Precisamos passar por experiências
que nem sempre são gratificantes
pois uma existência passada em brancas nuvens,
é uma existência sem frutos.
Um dia, talvez, venhamos a entender melhor
os mistérios da vida e que, para chegarmos a um determinado ponto,
muitas vezes teremos que passar por vários obstáculos.
Talvez entendamos que precisamos nos purificar
sofrendo várias provações até conseguir nossos objetivos
e receber alguma recompensa.
Algumas doutrinas religiosas e filosóficas
tentam explicar porque algumas pessoas sofrem
e outras são poupadas
e porque alguns de nós encontram suas metades
e outros passam a vida inteira a procurá-las.
Mas são explicações que talvez nós leigos,
não consigamos facilmente entender.
A única coisa que podemos arriscar,
é que nada acontece por acaso ...ou será que acontece?
Talvez, quando sofremos,
estejamos passando por um processo de purificação
que nunca será entendido ou aceito por nós
enquanto estivermos vivendo a experiência.
Talvez, quando procuramos alguém ou alguma coisa,
estejamos nos informando; talvez quando encontramos
tanta gente incompatível conosco
é porque, de alguma maneira,
somos ou fomos as pessoas determinadas a surgir em suas vidas,
seja para suportá-la, ajudá-las ou para que,
através delas, aprendamos alguma lição importante:
da serenidade à perseverança, da paciência à fé.
Mas, por mais que apanhemos,
que nos escondamos para fugirmos da vida,
de nós mesmos, dos machucados e rejeições, tudo passa.
O desespero nunca foi solução para nada pois,
afinal, não há mal que sempre dure e nem bem
que nunca acabe.
A vida sempre seguirá dando voltas.
Tomara que saibamos aproveitar as ascensões
para levantar quem estiver próximo de nós
e as quedas para aprendermos a ser humildes.

Tercília Braiani



:: 27 de outubro, 2006 ::

PRECE

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Alivia a minha alma,
faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha,
faze com que eu sinta que a morte não existe
porque na verdade já estamos na eternidade,
faze com que eu sinta que amar é não morrer,
que a entrega de si mesmo não significa a morte,
faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,
faze com que eu não Te indague demais,
porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,
faze com que me lembre
de que também não há explicação
porque um filho quer o beijo de sua mãe
e no entanto ele quer
e no entanto o beijo é perfeito,
faze com que eu receba o mundo sem receio,
pois para esse mundo incompreensível eu fui criada
e eu mesma também incompreensível,
então é que há uma conexão
entre esse mistério do mundo e o nosso,
mas essa conexão não é clara para nós
enquanto quisermos entendê-la,
abençoa-me para eu viva com alegria
o pão que eu como,
o sono que durmo,
faze com que eu tenha caridade por mim mesma,
pois senão não poderei sentir que Deus me amou,
faze com que eu perca o pudor de desejar
que na hora de minha morte
haja uma mão humana amada para apertar a minha,
amém.

Clarice Lispector



:: 25 de outubro, 2006 ::

Pátria Minha

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A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...

Vinicius de Moraes."



:: 14 de outubro, 2006 ::

POEMA NATURAL

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Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do
[ tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao
[ vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

De Poemas (1937)
Adalgisa Nery



:: 12 de outubro, 2006 ::


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:: 08 de outubro, 2006 ::

A fotografar vidas

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capturo e eternizo
com o vidro despolido
de minha Yashica
teu sorriso, teu gesto
tua vida em começo
me surpreendo com a idéia
pueril, mágica e banal
de guardar as vidas
queridas
nas gavetas
rio-me
de minha onipotência

in "Lições de Tempo"

Dalila Teles Veras



:: 02 de outubro, 2006 ::

SAUDADE

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Ah, essa saudade vadia,
a passear, insistente,
pelo fundo dos meus olhos;
não se decide, afinal,
a ir embora de vez...
Brinca com a tristeza
que transcende o meu olhar,
invade o meu coração
e mata todas as flores
que desabrocharam
em mim...

Luiz Carlos Amorim