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:: 29 de setembro, 2006 ::
Corsário

Meu coração tropical
está coberto de neve
mas
ferve em seu cofre gelado
a voz vibra
e a mão escreve
mar
bendita lâmina grave que
fere a parede
e traz
as febres loucas e breves
que mancham o silêncio
e o cais
Roserais
Nova Granada de Espanha
por você
eu teu corsário preso
vou partir
a geleira azul da solidão
e buscar a mão do mar
me arrastar até o mar
procurar o mar
Mesmo que eu mande em garrafas
mensagens por todo o mar
meu coração tropical
partirá esse gelo
e irá
com as garrafas de náufragos
e as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha
e as rosas partindo o ar
João Bosco / Aldir Blanc
:: 28 de setembro, 2006 ::
Ao Luar

Quando, à noite, o Infinito se levanta
A luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha táctil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!
Augusto dos Anjos
:: 23 de setembro, 2006 ::
É TEMPO DE PRIMAVERA!

Um piano. um violino.
Uma canção.
Uma canção antiga
Que o vento trás.
Uma canção de ninar.
Ausência presente.
Silêncio que alivia.
Deixo que meus braços
Se transformem em abraços
Através da noite escura,
Até a chegada da luz!
O som ao longe
Envolvendo a alma.
É a melodia na noite
Que nos faz assim!
Enquanto na música se revelam
Os segredos da noite,
Vou tirando de minha mente aflita,
Tudo o que ocorreu de ruim.
Tudo ficou para trás...
É tempo de primavera.
Tempo de se fazer feliz!
Sussurram as flores.
Voam as andorinhas.
Sinta os espiritos das matas,
Tupã, Yaci, Iara,
Buscam a melodia
Do espirito da noite,
É primavera no coração!
Delansieve Daspet
:: 21 de setembro, 2006 ::
PAZ

Juan Romero - Paz en el arbol
Na ponta dos pés
como bailarina pisando
em folhas e assombros,
costurar os dois lados da lua,
a terra no céu,
e no céu e na Terra
desenhar com o corpo inteiro
a palavra paz.
Roseana Murray
:: 18 de setembro, 2006 ::
O BORDADO

Quando eu era pequeno minha mãe costurava muito.
Eu me sentava perto dela e lhe perguntava
o que estava fazendo.
Ela me respondia que estava bordando.
Eu observava seu trabalho de uma posição
mais baixa de onde ela estava sentada,
e sempre lhe perguntava o que estava fazendo
dizendo-lhe que de onde eu estava
o que ela fazia me parecia muito confuso.
Ela sorria, olhava para baixo e gentilmente dizia:
"Filho, saia um pouco para brincar
e quando terminar meu bordado te chamarei
e te colocarei sentado em meu colo
e te deixarei ver o bordado dessa minha posição".
Perguntava-me porque ela usava
alguns fios de cores escuras e porque me pareciam
tão desordenados de onde eu estava.
Minutos mais tarde escutava-a chamando-me:
"Filho, vem e senta-te em meu colo".
Eu o fazia de imediato e me surpreendia
e emocionava ao ver a formosa flor
e o belo entardecer no bordado.
Não podia crer, de baixo parecia tão confuso.
Então minha mãe me dizia:
"Filho, de baixo para cima se vê confuso e desordenado,
porque não te ocorres de que há um plano acima.
Havia um desenho e eu o estava seguindo.
Agora olhando-o da minha posição,
sabes o que eu estava fazendo".
Muitas vezes ao longo dos anos,
tenho olhado para o céu e dito: "Pai o que estais fazendo?"
Ele responde: "Estou bordando tua vida".
E eu lhe replico: "Mas está tudo tão confuso; em desordem.
Os fios parecem tão escuros, por que não são brilhantes?"
O Pai parecia dizer-me: "Meu filho, faz com carinho o teu trabalho . . .
e Eu farei o meu...
Um dia te trarei ao céu e te colocarei em meu colo e
então verás o plano dessa minha posição".
(Autoria desconhecida)
contribuição de José Luis
:: 15 de setembro, 2006 ::
Derradeira primavera

Põe a mão na minha mão
Só nos resta uma canção
Vamos, volta, o mais é dor
Ouve só uma vez mais
A última vez, a última voz
A voz de um trovador
Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera
Vinicius de Moraes
:: 11 de setembro, 2006 ::
Dolores

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara,
apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza ~
os meus músculos frouxos...
Mas não quero.
Exijo a sorte comum
das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome
impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo,
porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento,
antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria
de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
Adélia Prado
:: 07 de setembro, 2006 ::
O Amor Calado

Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
Odilo Costa Filho
:: 06 de setembro, 2006 ::
Minha vida

Aqui está a minha vida, esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário,
que de um lado era amor
e, de outro, esquecimento.
Cecília Meirelles
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