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:: 31 de agosto, 2006 ::
Chorar

É tanto sentimento alojado
no meu íntimo
que ao abrir as comportas da opressão
sempre choro.
Choro por estar feliz.
Choro de tristeza.
Choro por sorrir.
Choro - com lágrimas que
lavam a alma.
Na vitória. Na derrota.
Na emoção. Na satisfação.No prazer.
São lágrimas de conquista.
De reconhecimento. De consolo.
Da satisfação de um sonho realizado.
Lágrimas de recompensa
de longas noites de vigília e espera.
Choro por orgulho de saber chorar.
Lágrimas que lavam
uma dor incomensurável
que saem de uma alma ferida.
Choro a saudade
na sinceridade do afeto.
Não quero chorar o desespero
da imprudência ou da incapacidade.
Não quero chorar a intolerância.
Não quero chorar o desamor.
Não quero chorar a falta de
caridade e nem de remorsos.
Estas são lágrimas que não aliviam.
Quando chorar, quero a alegria da paz.
Devagar vou conhecendo
A força e a beleza no silêncio do chorar!
Delasnieve Daspet
:: 30 de agosto, 2006 ::

"Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os caminhos
que nos levam aos mesmos lugares,
é o tempo da travessia,
e se não ousamos fazê-la,
teremos ficado para sempre
à margem de nós mesmos.
Somente a coragem lúcida
pode trazer o novo."
Fernando Pessoa
:: 26 de agosto, 2006 ::

A vida não tem ensaio
mas tem novas chances
Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o eterno arrependimento
a duração inútil dos rancores
Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!
(Elisa Lucinda. “Libação”
In: euteamo e outras estréias)
:: 20 de agosto, 2006 ::
instantes

há instantes-lâmina,
instantes que nos retalham
e nos confrontam com quem somos
e porque.
percorrem-nos lentamente
em sua natureza afiada.
silvia chueire
:: 17 de agosto, 2006 ::
Anjos Caninos

Hoje eu estou triste porque o meu anjo canino nos deixou
teve que ser sacrificada porque não andava mais e
estava cheia de tumores.
A minha homenagem a ela
Existem pessoas que não gostam de cães.
Estas, com certeza, nunca tiveram na sua vida
um amigo de quatro patas.
Ou, se tiveram, nunca olharam dentro
daqueles olhos para perceber quem estava ali.
Um cão é um anjo que vem ao mundo ensinar amor.
Quem mais pode dar amor incondicional,
amizade sem pedir nada em troca,
afeição sem esperar retorno,
protecção sem ganhar nada,
fidelidade vinte e quatro horas por dia?
Ah, não me venham com essa de que os pais fazem isso,
porque os pais são humanos
e quando os agredimos
eles ficam irritados e afastam-se...
Um cão não se afasta!
Mesmo quando você o agride
, ele retorna cabisbaixo,
pedindo desculpas por algo
que talvez não tenha feito,
lambendo as suas mãos a suplicar perdão.
Alguns anjos não possuem asas,
possuem quatro patas, um corpo peludo,
nariz de bolinha, orelhas de atenção,
olhar de aflição e carência.
Apesar dessa aparência,
são tão anjos quanto os outros
(aqueles com asas), e dedicam-se aos seus humanos
tanto quanto qualquer anjo costuma dedicar-se.
Às vezes, um humano veste a capa de anjo
e sai pelas ruas a catar alguns anjoss
abandonados à própria sorte.
Cura-lhes as feridas, alimenta e abriga;
só para ter a sensação de haver ajudado um anjo...
Deus, quando nos fez humanos
, sabia que precisaríamos de guardiões materiais
que nos tirassem do corpo as aflições dos sentidos,
e nos permitissem sobreviver a cada dia
com quase nada além do olhar
e da lambida de um cão...
Que bom seria se todos os humanos
pudessem ver a humanidade perfeita de um cão!
Autaor desconhecido
:: 16 de agosto, 2006 ::
TODAS AS MÃOS

Todas as mãos
contêm o medo e a coragem,
constroem mas também destroem,
transformando o mundo.
Delas nasce vida viva
e morre por fim a morte...
Nos indicam os caminhos,
onde semeiam suas justas injustiças,
que crescem nas unhas bem aparadas,
onde as bermas deitam sangue
e se isolam os amores perdidos.
As mãos lavram o destino...
Sem nunca ser tarde...
Nem nunca ser cedo...
Manuel Neves
:: 13 de agosto, 2006 ::
Véspera do dia dos mortos

Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.
Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.
Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.
Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.
Luís Antonio Cajazeira Ramos
:: 09 de agosto, 2006 ::
Poema Transitório

(...) é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar...
Ah, como esta vida é urgente!
... no entanto
eu gostava mesmo era de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial
perdida entre as estrelas.
Mario Quintana
:: 08 de agosto, 2006 ::
DEFICIÊNCIAS

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive,
sem ter consciência de que é dono do seu destino.
"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio,
de fome, de miséria.
E só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo
de um amigo, ou o apelo de um irmão.
Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir
seus tostões no fim do mês.
"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente
e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico" é quem não consegue andar
na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético" é quem não consegue ser doce.
"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois
"Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.
"A amizade é um amor que nunca morre."
Mario Quintana
:: 07 de agosto, 2006 ::
Deixa-me seguir para o mar

Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma....
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui,um rio fluindo...
Em vão,em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
É seguir para o mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir,passar,cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!
Mario Quintana -Baú dos Espantos
:: 06 de agosto, 2006 ::
OS PARCEIROS

Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.
Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste...
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.
Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro... eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se
numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
Como também disfarce é a minha vida!
MÁRIO QUINTANA
:: 05 de agosto, 2006 ::
O que o vento não levou

No fim tu hás de ver
que as coisas mais leves
são as únicas que o vento
não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia
o próprio vento....
Mário Quintana
:: 04 de agosto, 2006 ::
Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
Mario Quintana
:: 03 de agosto, 2006 ::
Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
Mario Quintana ( livro Canções de Mário Quintana)
:: 02 de agosto, 2006 ::
Canção para uma Valsa Lenta

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...
Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não me amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... Passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance....
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso... de um gesto... um olhar
Mario Quiintana
:: 01 de agosto, 2006 ::
A IDADE DE SER FELIZ

Existe somente uma idade para a gente ser feliz;
somente uma época na vida de cada pessoa
em que é possível sonhar e fazer planos
e ter energia bastante para realizá-los
A despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida
e viver apaixonadamente
e desfrutar tudo com toda intensidade
sem medo nem culpa de sentir prazer.
Fase dourada em que a gente
pode criar e recriar a vida
à nossa própria imagem e semelhança
e vestir-se com todas as cores
e experimentar todos os sabores
e entregar-se a todos os amores
sem preconceito nem pudor.
Tempo de entusiasmo e coragem
em que todo desafio é mais um convite a luta
que a gente enfrenta com toda disposição
de tentar algo novo, de novo e de novo
e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz na vida da gente
chama-se...presente!
e tem a duração do instante que passa.
MÁRIO QUINTANA
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