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:: 31 de julho, 2006 ::


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Oração

Dai-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
Às almas eu distribua
Minha porção de poesia
Sem que ela diminua...
Poesia tanta e tão minha
Que por uma eucaristia
Possa eu faze-la sua
Ëis minha carne e meu sangue!"
A minha carne e meu sangue
Em toda a ardente impureza
Deste humano coração...
Mas ó Coração Divino,
Deixai-me dar de meu vinho
Deixai-me das de meu pão!
Que mal faz uma canção?
Basta que tenha beleza...

Mario Quintana



:: 26 de julho, 2006 ::

A minha velhota

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Minha Manelinha,
avó pequenina,
meio maga
meio criança,
sabia tudo da vida.
Acalmava as dores
os choros e os amores

Onde estiver agora
minha avózinha
não olhe, não veja
os erros da netinha.

Que falta faz ao pé de mim!
Parece que acabou a família
quando nos deixou assim.
De fininho, sem querer incomodar
sem ruído, sem odor,
sem saber o que fazer
para nos dar mais amor.

Se nos vir não fique triste
a vida faz-se de viver,
de amar, de chorar,
não se pode evitar.

Ana Pintão,
Lisboa, Portugal



:: 24 de julho, 2006 ::

Rosas...

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Se eu posso sentir seu perfume
Tão distante e tão presente,
Diminuindo essa saudade...
Não saber de você
Só atiça meu ciúme.
Te saber longe e ausente,
Talvez em outros braços,
Vivendo outros abraços,
Dói no fundo
E dói profundo...
Te quero só meu
Por um todo
Pra sempre...
Sou possessiva, eu sei!!!
Sou mulher,
Não uma qualquer,
Mas aquela que te ama!...
Aquela que nas noites te reclama,
Sozinha,
Entre sonhos e desejos...
Tendo por companhia
O perfume das rosas,
Que não dizem nada,
Que ouvem, caladas,
Minhas confissões e meu desespero...
E que me perfumam
Só pra me consolar.

Letícia Thompson



:: 20 de julho, 2006 ::


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:: 18 de julho, 2006 ::

Navegue ...

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Navegue, descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe,
elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque,
elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar,
não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama?
Guarde dentro de um porta jóias,
tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia
que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira e se o milênio é outro,
se a idade aumenta; conserve a vontade de viver,
não se chega à parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar
e as portas também.
Persiga um sonho, mas não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com amor,
cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.
Procure, sempre procure o fim de uma história,
seja ela qual for.
Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos,
mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos
e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia
se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
"Circunda-te de rosas,
ama, bebe e cala.
O mais é nada".

Fernando Pessoa



:: 16 de julho, 2006 ::

quisera

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ser pluma,
estar no rio desaguado
ao fio da corrente,
sem angústia,
nem protestos.

deixar deitar a alma
e não ver.
não escrever.
ser apenas o grafite,
a ponta aguda do lápis.

- não haverá porquês
na atlântica distância
que me esperará sempre. –

é por isso que choro?
ah não...
choro porque tanto de mim é água,
é mar,
é líquido,
e no entanto, inquietude.

Silvia Chueire



:: 12 de julho, 2006 ::

Leveza

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Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

Cecilia Meireles



:: 10 de julho, 2006 ::

Línguas

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Contenho vocação para não saber
línguas cultas
Sou capaz de entender as abelhas
que alemão.
Eu domino os instintos primitivos

A única língua que estudei com
força foi a portuguesa.
Estudei-a com força para poder
errá-la ao dente

A língua dos índios Guatós é
múrmura: é como se ao
dentro de suas palavras corresse
um rio entre pedras

A língua dos Guaranis é gárrula :
para eles é muito mais importante o
rumo das palavras do que o
sentido que elas tenham
Usam trinados até na dor.

Na língua dos Guanás há sempre
uma sombra do
charco em que vivem.
Mas é língua matinal.

Há nos seus termos réstias de um
solo infantil

Entendo ainda o idioma
inconversável das pedras.
É aquele idioma que melhor
abrange o silêncio das palavras.

Sei também a linguagem dos
pássaros - é só cantar.

Manoel de Barros.



:: 09 de julho, 2006 ::

Valsas de Esquina de Mignone

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Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

Dora Ferreira da Silva



:: 03 de julho, 2006 ::

O corpo

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osso abrasado,
meteoro
na minha cabeça.

Que é a vida
senão
um bramido inútil?

Da tua história
expulsa o tumor.
Num lençol de sangue
alcançarás o repouso.

Feridas pelos vidros
para trás ficam as mãos
o riso e os suaves lírios,
o espírito que sai pela boca”

Ana Marques Gastão