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:: 27 de março, 2006 ::
Receituário

Dispense os chás de ervas,
os calmantes,
as receitas de lorotas
em conserva,
alucinógenos,
bebidas inebriantes,
alcool em excesso,
glicógenos,
os moderadores,
os estimulantes
as bulas de remédios limitantes
as lições de poder sob medida.
Liberte o coração e beba a vida.
Flora Figueiredo
:: 22 de março, 2006 ::
PLANETA ÁGUA

Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho
e deságua na corrente do ribeirão
Águas escuras dos rios
que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias
e matam a sede da população
Águas que caem das pedras
no véu das cascatas, ronco de trovão
E depois dormem tranqüilas no leito dos lagos,
no leito dos lagos
Água dos igarapés, onde Iara,
a mãe d'água é misteriosa canção
Água que o sol evapora, pro céu vai embora,
virar nuvem de algodão
Gotas de água da chuva,
alegre arco-íris sobre a plantação
Gotas de água da chuva, tão tristes,
são lágrimas na inundação
Águas que movem moinhos
são as mesmas águas que encharcam o chão
E sempre voltam humildes pro fundo da terra,
pro fundo da terra
Terra, planeta água
Guilherme Arantes
:: 21 de março, 2006 ::
Canção do Outono

Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh'alma
num langor de calma
e sono.
Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.
Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido...
Tradução de
Alphonsus de Guimaraens
Paul Verlaine
:: 14 de março, 2006 ::
POEMA DOS OLHOS DA AMADA

Para homenagear o dia nacional da Poesia,
nada melhor do que
Vinicius de Moraes
Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
Vinicius de Moraes
:: 13 de março, 2006 ::
Esvoaça...Esvoaça...

É como a vela que se apaga,
E a fumaça sobe e se atenua.
É o amor fraco que se apaga,
Não adiantam poemas para a lua.
Sofre o homem, o amor acaba
E a doce influência esvoaça
Como o fio adelgaçado
De fina e translúcida fumaça
Esvoaça, esvoaça...
Atenua o amor,
Atenua a fumaça.
Para que tanta dor?
E o amor que vai sumindo,
Adelgaça, esvoaça, esvoaça
Ana Cristina Cesar
:: 08 de março, 2006 ::

Viva o dia internacional das mulheres!!!
Quem é ela...
que caminha como que sobre nuvens
Quem é ela...
que exibe sorriso de pérola
Quem é ela...
que enfeitiça ao tocar
Quem é ela... com o oceano em seus cabelos
o sol no olhar
Quem é ela...
que dá a vida, a luz
Sublime ser
Mulher
Fernanda Viana Lorens
:: 06 de março, 2006 ::
Canção Para Poder Viver

Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.
Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?
Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.
Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:
E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa
Dou-lhe o meu canto louco; faço
um pouco mais do que ser louco.
E ela me exige bis, "ao palco"!
Cassiano Ricardo
:: 02 de março, 2006 ::
Tudo que somos

Tudo que somos,
pouco sabemos.
Um poço imenso,
cheio de sonos.
Quando choramos,
não nos perdemos.
Viver é um sonho,
não esqueçamos.
Viver é a sombra,
o assombro,o apenas.
Tão frágeis somos !
Frágeis e imensos.
Antonio Brasileiro
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