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:: 30 de novembro, 2005 ::

Receita de casa

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Uma casa deve ter varandas
para sonhar,cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir,e o dom de surpreender
- que é a sua essência.

Lya Luft



:: 28 de novembro, 2005 ::

Tudo são Maneiras de Ver

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Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.
Onde você vê um motivo pra se irritar,
alguém vê a tragédia total
e o outro vê uma prova para sua paciência.
Onde você vê a morte,
alguém vê o fim e o outro vê
O começo de uma nova etapa.
Onde você vê a fortuna,
alguém vê a riqueza material
e o outro pode Encontrar por trás de tudo,
a dor e a miséria total.
Onde você vê a teimosia,
alguém vê a ignorância,
Um outro compreende as limitações do companheiro,
percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo
e que é inútil querer apressar o passo do outro,
não ser que ele deseje isso.
Cada qual vê o quer, pode ou consegue enxergar.
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.

Fernando Pessoa



:: 26 de novembro, 2005 ::

Condição humana

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Como captar da vida
o que rápido, foge
entre dúvidas?
Como reter o que,
mal surge,
já se desfaz: é sombra,
algo vago, já neutro,
réstia pálida, eco
de nada, de ninguém?
Um minuto se esboça,
rútilo se sonha,
ardente se anuncia.
Onde? Quando? Quem sabe?
Sempre se sabe tarde,
sem mais onde, nem quando

Emilio Moura



:: 24 de novembro, 2005 ::

MAU DESPERTAR

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Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

Ferreira Gullar



:: 21 de novembro, 2005 ::

Nunca

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Nunca soube por que tanta gente teme o futuro.
Nunca vi o futuro matar ninguém,
Nunca vi o futuro roubar ninguém,
Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro.
Terrível é o passado ou,pior,o presente!

Millor Fernandes



:: 17 de novembro, 2005 ::

Vida

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A vida são deveres
que nós trouxemos pra fazer em casa.
Quando se vê já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, passaram-se 50 anos!
Agora, é tarde demais
para ser reprovado...
Se me fosse dada, um dia,
outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente
e iria jogando, pelo caminho,
a casca dourada
e inútil das horas...
Dessa forma eu digo,
não deixe de fazer algo que gosta
devido à falta de tempo,
a única falta que terá,
será desse tempo
que infelizmente não voltará mais.

Mário Quintana



:: 15 de novembro, 2005 ::

Amor no éter

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Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde,
Aves pernaltas,os bicos mergulhados na água,
entrame não nesse lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nel,quando os desejos do corpo,
a metafísica,exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim,teu meio-riso secreto
atravessar mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde

Adélia Prado



:: 11 de novembro, 2005 ::


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Se sua rua porventura aparecer
coberta de pétalas caídas
pela inclemência
de um vento qualquer,
não faça nada.

Deixe-a assim desordenada
e descabida.

São reticências que sobraram da estação passada.

Acabarão varridas pela própria vida...

Flora Figueiredo



:: 07 de novembro, 2005 ::

A HISTÓRIA DO LÁPIS

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O menino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou:
- Você está escrevendo uma história que aconteceu conosco?
É uma história sobre mim?
A avó parou a carta, sorriu, e comentou com o neto:
- Estou escrevendo sobre você, é verdade.
Entretanto, mais importante do que as palavras, é o lápis que estou usando.
Gostaria que você fosse como ele, quando crescer.
O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial.
- Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!
- Tudo depende do modo como você olha as coisas.
Há cinco qualidades nele que, se você conseguir manter,
será sempre uma pessoa em paz com o mundo.
Primeira Qualidade: você pode fazer grandes coisas,
mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão
que guia seus passos. Esta Mão nós chamamos de Deus,
e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade;
Segunda Qualidade: de vez em quando,
eu preciso parar o que estou escrevendo,
e usar o apontador.
Isso faz com que o lápis sofra um pouco,
mas no final, ele está mais afiado.
Portanto, saiba suportar algumas dores,
porque elas o farão ser uma pessoa melhor;
Terceira Qualidade: o lápis sempre permite
que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado.
Entenda que corrigir uma coisa que fizemos
não é necessariamente algo ruim,
mas algo importante para o manter no caminho da justiça;
Quarta Qualidade: o que realmente te importa no lápis
não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro.
Portanto sempre cuide daquilo que acontece dentro de você e, finalmente, a
Quinta Qualidade : ele sempre deixa uma marca.
Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida,
irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação.

Autor
Desconhecido



:: 03 de novembro, 2005 ::

POEMA QUASE EXPLICAÇÃO

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Luzes cortaram mais uma vez a noite básica
e desenharam o mundo em que vivemos.

E as estrelas derramaram pedra e cal
e construíram em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
— e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal, prontas para o nada.

Simplificado como uma lágrima
cruzaste a tua ponte de meninos mortos:
não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas o descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.

Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.

Moacir Félix