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:: 28 de agosto, 2005 ::

ALENTO

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Quando mais não houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.


Caio Fernando de Abreu



:: 25 de agosto, 2005 ::

Alice Ruiz me diz:

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Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo,
esqueça seu cotovelo

Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas, viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto
invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

Alice Ruiz



:: 21 de agosto, 2005 ::

Não basta saber amar

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Neste mundo,que tanto mal encerra,
não basta saber amar,
mas também saber odiar,
não só servir a paz,mas também ir para a guerra.
Seguiremos assim o próprio exemplo
de Jesus,que tanto amor pregou na Terra...,
quando Ele,
que num ímpeto de cólera,
a relhaço expulsou os vendilhões do templo!

Mário Quintana



:: 18 de agosto, 2005 ::

Falha Nossa

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Quando Deus criou a emoção
Ele a fez natural e equilibrada
de forma tal,
que a lágrima veio então dosada
nas justas proporções
do açúcar e do sal.
Foi o homem que a tornou exacerbada
e conflitante.
É que Deus num momento descuidado
ficou entusiasmado:
inventou o poeta e o amante.

Flora Figueiredo



:: 15 de agosto, 2005 ::

Cansei

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Cansei
cansei da solenidade,
da formalidade,da metáfora.
Cansei da mão guardada por dentro
e daquele gesto medido, comedido.
Mudei de opinião.
Acerca de quase tudo:
pessoas, obra de arte, vida, profissão.
Não quer dizer que fiquei melhor,
nem pior.
Fiquei diferente.
Conservei as aparências,
o mesmo trabalho cotidiano,
a mesma casa, os mesmos horários,
a mesma cidade.
E a vida continuou
subterrânea
vital
líquida corrente
ainda que seu percurso
de carne e argamassa
congelasse a superfície.
Ainda não sei se sou radical.
É a única questão a resolver.
Quanto ao resto, amigos,
mudei
como se muda a vista breve de uma manhã
ou a arquitetura de um vôo.

Neide Archanjo-



:: 13 de agosto, 2005 ::

SER PAI

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De todas as minhas modestas dimensões humanas,
a que mais me realiza é a de ser pai.

Ser pai é, acima de tudo, não esperar recompensas.
Mas ficar feliz caso e quando cheguem.
É saber fazer o necessário por cima
e por dentro da incompreensão.
É aprender a tolerância com os demais
e exercitar a dura intolerância
(mas compreensão) com os próprios erros.

Ser pai é aprender, errando,
a hora de falar e de calar.
É contentar-se em ser reserva,
coadjuvante, deixado para depois.
Mas jamais falhar no momento preciso.
É ter a coragem de ir adiante,
tanto para a vida quanto para a morte.
É viver as fraquezas que depois corrigirá no filho,
fazendo-se forte em nome dele
e de tudo o que terá de viver
para compreender e enfrentar.

Ser pai é aprender a ser contestado
mesmo quando no auge da lucidez.
É esperar.
É saber que experiência só adianta para quem a tem,
e só se tem vivendo.
Portanto, é agüentar a dor de ver
os filhos passarem pelos sofrimentos necessários
buscando protegê-los sem que percebam,
para que consigam descobrir os próprios caminhos.

Ser pai é: saber e calar.
Fazer e guardar. Dizer e não insistir.
Falar e dizer. Dosar e controlar-se.
Dirigir sem demonstrar.
É ver dor, sofrimento, vício,
queda e tocaia, jamais transferindo aos filhos
o que, a alma, lhe corrói.

Ser pai é ser bom sem ser fraco.
É jamais transferir aos filhos
a quota de sua imperfeição,
o seu lado fraco, desvalido e órfão.

Ser pai é aprender a ser ultrapassado,
mesmo lutando para se renovar.
É compreender sem demonstrar,
e esperar o tempo de colher,
ainda que não seja em vida.
Ser pai é aprender a sufocar
a necessidade de afago e compreensão.
Mas ir às lágrimas quando chegam.

Ser pai é saber ir-se apagando
à medida em que mais nítido se faz
na personalidade do filho,
sempre como influência, jamais como imposição.
É saber ser herói na infância,
exemplo na juventude e amizade na idade adulta do filho.
É saber brincar e zangar-se.
É formar sem modelar, ajudar sem cobrar,
ensinar sem o demonstrar, sofrer sem contagiar,
amar sem receber.

Ser pai é saber receber raiva,
incompreensão, antagonismo, atraso mental,
inveja, projeção de sentimentos negativos,
ódios passageiros, revolta,
desilusão e a tudo responder
com capacidade de prosseguir sem ofender;
de insistir sem mediação,
certeza, porto, balanço, arrimo, ponte,
mão que abre a gaiola,
amor que não prende,
fundamento, enigma, pacificação.

Ser pai é atingir o máximo de angústia
no máximo de silêncio.
O máximo de convivência no máximo de solidão.
É, enfim, colher a vitória
exatamente quando percebe que o filho
a quem ajudou a crescer já, dele, não necessita para viver.
É quem se anula na obra que realizou e sorri,
sereno, por tudo haver feito
para deixar de ser importante.

Arthur da Távola



:: 10 de agosto, 2005 ::

A terra prometida

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Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra se morrer em paz

Vinicius de Moraes



:: 08 de agosto, 2005 ::

Medo

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Nosso medo é nosso fardo,
embora possa ser também nosso meio de defesa.
O medo que gera a prudência é positivo e necessário.
Podemos observar já em bebezinhos o medo de perder a mãe.
Não sei se vocês já viram um vídeo de um aborto
onde o feto tenta desesperadamente de se agarrar à vida.
Nos animais o medo faz com que se defendam.
Nesse ponto prepara-os para um eventual perigo.
O medo é o sinal laranja que nos diz "atenção!"
Mas esse pode ser também destrutivo,
quando deixamos que tome conta da gente.
Há pessoas que se deixam levar por esse sentimento
de tal forma que são incapazes de tomar qualquer atitude.
Elas se bloqueiam, se petrificam diante de situações
que temem e ficam sem ação.
E fazendo isso, deixam de viver normalmente,
são atingidas em pleno peito pelo que tanto receiam.
Muitos morrem do próprio temor.
Tanto eles temem que acabam atraindo para si mesmos a infelicidade.
É o caso de pessoas que temem acidentes
a tal ponto de sentirem-se petrificadas
diante de uma situação que poderiam facilmente evitar.
Ou doenças.
Nosso cérebro é algo extraordináio.
Ele coordena e comanda todo o nosso corpo e as nossas ações.
Exercitá-lo diariamente com nossos medos pode ser muito perigoso.
Nossas palavras têm poder e nossos pensamentos também.
Muitos temem amar. Medo de decepções, de sofrimento.
Preferem se fechar numa concha
e olhar o mundo através duma janela
do que se abrir e se entregar ao inevitável.
Amor traz sofrimento sim.
Mas quanta felicidade traz também,
quanta agitação no peito, quanto suspiro,
quanto brilho nos olhos, quanta beleza!
É a velha história do copo pelo meio:
uns vêm meio cheio, outros meio vazio.
E isso faz uma grande diferença!
As pessoas otimistas preferirão correr o risco
e viverão plenamente todas as coisas.
As outras serão apenas passantes da vida, não viventes.
E o medo é algo tão inerente ao ser humano
que até mesmo quando se sente feliz, sente medo.
Medo que seja bom demais, que isso passe, que isso se perca.
E no auge da felicidade o medo se instala.
E, se instalando, estraga tudo,
nos impede de viver o momento presente, tão divino.
Como o ciúme, que corrói a alma e relacionamentos
e destrói minutos e horas que poderiam ser maravilhosos.
Jogamos fora nosso tempo a troco de nada.
Então troque!
Troque uma boa briga por um bom beijo!
Troque a indiferença por um pouco de atenção!
Troque o medo pela ousadia (só o suficiente!)!
O pessimismo por uma gota de otimismo!
Um aperto de mão por um gostoso abraço!
Um instante de inquietação por um segundo de oração.
Uma maldição por uma bênção!
Experimente a vida!
Isso me faz pensar nas belas palavras de Roberto Carlos:
"Eu sei já sofri, mas não deixo de amar.
Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi."

Letícia Thompson



:: 06 de agosto, 2005 ::

Ficaram-me as Penas

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O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

Cassiano Ricardo



:: 02 de agosto, 2005 ::

REBELDIA

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Soltem-me
as algemas

Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre

Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida

Manuela Amaral