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:: 24 de fevereiro, 2005 ::
TESTAMENTO

Deixo meus olhos
ao cego que mora nesta rua.
Deixo a minha esperança
ao primeiro suicida.
Deixo a polícia
o meu rastro.
a Deus meu último eco
Cassiano Ricardo
:: 21 de fevereiro, 2005 ::
A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
Clarice Lispector
:: 18 de fevereiro, 2005 ::
Me leve (Cantiga Para Não Morrer)

Quando voce for embora,
moca branca como a neve,
me leve, me leve ...
Se acaso voce não possa,
me carregar pela mão
menina branca de neve,
me leve no coração
Se no coração nao possa,
por acaso, me levar
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se ai tambem não possa,
por tanta coisa que leve
ja viva em seu pensamento,
moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento
Me leve ... me leve ...
Ferreira Gullar
:: 14 de fevereiro, 2005 ::
Amor e Medo

Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.
Afonso Romano de Sant'Anna
:: 10 de fevereiro, 2005 ::
Arte final

"Temos a arte para que a verdade
não nos destrua..." (Nietzsche)
A arte de poder chorar
a arte de poder sorrir
acho que as perdi
Mas ainda me resta
a arte de
poder dormir...
Eliane Stoducto
:: 08 de fevereiro, 2005 ::
Sentimento carnavalesco
É ter por dentro ecos formidáveis, batucadas existenciais,
passistas encantadas realizando a coreografia da saudade.
Ao lado delas, segue um jovem emocionado por viver
e saber-se carioca em profundidade,
identificado com tudo aquilo.
Aquele jovem saiu no bloco da vida e foi para onde?
É não se agradar do Carnaval concreto, que tem tudo "demais":
Preços, "seguranças", angústia, crachás, barraquinhas, nudez.
É agradar-se do desejo de ser leve e solto,
vagabundo e belo,
e sem tantos deveres ou consciência;
é preferir a alma da festa que o seu corpo,
embora estupefacto
diante da beleza de mulheres impossíveis.
De escritor que se compraz no que não tem,
por dificuldade de se relacionar com o possível.
É a criação de um território próprio onde se é rei
pelo cansaço de ser plebeu no território concreto dos homens.
É ainda a ânsia de sair por aí,
sem intenções ou objetivos,
cansado de conhecer, analisar.
Querendo apenas ser e viver.
Sem cogitar.
É não se aproveitar da fantasia para dizer verdades
recalcadas e provocar ofensores.
É sair por aí numa boa
e com uma só disposição:
a de não ter nada a fazer,
ninguém a quem convencer ou dar satisfações:
a alegria liberta de dispor do próprio tempo
e da própria vontade
segundo o que vai acontecendo
e não segundo os planos tensos e contraídos
do "ter que fazer", "dizer", "compreender" ou "realizar".
É a capacidade de ser criança, mulher ou grego.
Adoro fantasias de grego.
Sentir-me Pátroclo, o herói,
filho de Hércules,
amigo de Aquiles
e paquera de Helena,
indo para a Guerra de Tróia.
É ânsia de vôos e alegria.
Necessidade de não cogitar e
mergulhar na vida.
Um instante de inconseqüência
no meio da trajetória idiotamente lúcida, tão obscura.
É mandar às favas a ânsia de metafísica,
mera expressão dos medos que moram na mente,
vizinhos dos pensamentos
(não se dão, esses vizinhos!).
É acordar tranqüilo e emocionado, certeza de festa.
Só esperança, só juventude.
Do lado de lá, tanto coração!
Do lado de cá, tanta vontade!
Apenas ser vítima da alma diabólica das festas,
jamais autor ou relator, organizador ou apreciador.
Entrega total, bobalhona, nenhum pudor.
Vontade de ser passista ou tocador de surdo,
de mergulhar no delírio,
ser mais um,
chutar seriedades e convicções,
deveres e testemunhos.
Artur da Távola.
:: 06 de fevereiro, 2005 ::
Máscara Negra

Tanto riso
Oh! quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da colombina
No meio da multidão
Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi num carnaval que passou
Eu sou aquele pierrot
Que te abraçou que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval
Zé Ketti/Pereira Mattos
:: 03 de fevereiro, 2005 ::
Passando o tempo

O tempo tem todo o tempo que o tempo tem.
O tempo cabe no momento
Que se prolonga até a Eternidade.
O tempo tem a idade do infinito.
A idéia limita o tempo no espaço do pensamento.
O tempo flui lento no movimento
De uma flor que se abre ao mundo,
O tempo rasga veloz o vento
Nas asas da águia que retorna ao ninho.
O tempo guarda o passado, segue o presente
E traz permanentemente uma promessa de futuro.
O tempo medeia o necessário tempo
E impele a vida para a luz.
O tempo mede a vida com a régua do destino.
O tempo cessa num beijo, num suspiro, num orgasmo,
Arde no desejo, fere no espasmo, se esvai num tiro.
No silêncio o tempo nunca se cala
Ele fala em nossos sonhos, recordações,
Nas angústias, nas emoções contidas,
Na mágoa que busca asilo num canto do coração.
A noite envolve o tempo nas trevas
Abre-se o tempo para fadas, gnomos, devas,
Descerra-se a fantasia, enleva-se o lirismo
Em tempo de mistério, de vigília, de horas mortas.
A Natureza exorta a noite dos tempos
Que não cabe no tempo da noite que descansa.
O tempo abriga lembranças, conserva amizades,
Alimenta esperanças, quimeriza saudades.
O tempo já me deu tanto! Quanto falta? Só o tempo sabe,
Pelo meu tempo vou passando até que o tempo em mim desabe.
Francisco Simões
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