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:: 30 de agosto, 2004 ::
Nódulo

quando em algumas noites
tenho medo dos vivos e dos mortos
e o fogo que escapa das estrelas
é uma faca na garganta
quando em algumas noites a distância
entreo que foi e o que está sendo
é arquitetura intransponível
e os sonhos fogem como peixes em agonia
a poesia é o grito secreto
a geografia que atravessa este abismo
o sortilégio que me faz humana
que me faz em chamas
que me faz tocar o nódulo
das perguntas sem resposta
Roseana Murray
:: 29 de agosto, 2004 ::
"É triste não ter

"É triste não ter amigos?
Ainda mais triste é não ter inimigos.
Porque, quando não se tem inimigos,
Significa que não se tem:
Nem talento que faça sombra,
Nem caráter que impressione,
Nem coragem para que o temam,
Nem honra contra a qual murmurem,
Nem bens que lhe cobicem,
Nem coisa alguma que invejem..."
Voltaire
:: 26 de agosto, 2004 ::
NAVEGAR É PRECISO

Navegue, descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe;
elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque,
elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar,
não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama?
Guarde dentro de um porta-jóias,
tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia
que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira e se o milênio é outro,
se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver,
não se chega a parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar
e as portas também.
Persiga um sonho,
mas não o deixe viver sozinho.
Alimente sua alma com amor,
cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.
Procure, sempre procure
o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso
para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos,
mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos
e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudade, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
"Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
O mais é nada".
Fernando Pessoa
:: 23 de agosto, 2004 ::
A MUSA NO ESPELHO

Procuro-te em tudo:
no espaço, no tempo.
O espelho é fantástico.
No cristal partido
há rostos inúmeros.
São múltiplos, tantos.
Nenhum te conhece.
Uns calam, são tímidos.
São mortos, são vivos?
Ou apenas fragmentos
de doces espectros
que emergem, de súbito,
de um país perdido?
Navego no tempo,
procuro-te em tudo.
Perdida, mas rútila,
no espelho fantástico,
olhai! - há uma estrela.
Emílio Moura
:: 20 de agosto, 2004 ::
Sonhos de Aninha

Que a mesa esteja sempre posta para a oferta
modesta.
O pão da esperança e o vinho da alegria.
Combater o pessimismo e acreditar nos valores
humanos,
no patriotismo dos que governam e na recuperação
demorada dos erros e violências do presente.
Garimpar mentalmente, batear numa serra distante,
no estado vizinho,
dita Serra pelada. Toda de ouro e mais Carajás,
toda de mistérios insondáveis,
para pagar todas as dívidas do Brasile seus
contratos onerosos.
Exportar minérios, tantos, ainda não catalogados.
Ferro e ouro, ouro e ferro.
Quebrar os grilhões do débito.
Estas e outras esperanças e certezas.
Sonhos de Aninha.
Cora Coralina(1889-1985)
:: 19 de agosto, 2004 ::
Poema do esquecimento

Vendo passar as nuvens foi passando a vida,
e tu, como uma nuvem, passaste por meu tédio.
E se uniram então teu coração e o meu,
como se vão unindo as bordas de uma ferida.
Os últimos sonhos e os primeiros cabelos brancos
entristecem de sombra todas as coisas belas;
e hoje tua vida e minha vida são como as estrelas,
pois podem se ver juntas, estando distantes...
Eu bem sei que o esquecimento, como uma água maldita,
nos dá uma sede mais funda que a sede que nos resgata,
porém estou tão seguro de poder esquecer...
E olharei as nuvens sem pensar que te quero,
com o hábito surdo de um velho marinheiro
que ainda sente, em terra firme, a ondulação do mar.
José Angel Buesa
Tradução de Maria Teresa Almeida Pina
:: 17 de agosto, 2004 ::
A medida do abismo

Não é o grito
A medida do abismo?
Por isso eu grito
Sempre que cismo
Sobre tua vida
Tão louca e errada...
– Que grito inútil!
– Que imenso nada!
Vinícius de Moraes
:: 14 de agosto, 2004 ::
CAMINHO DO CORAÇÃO

Caminho que meu coração percorre...
Meu mundo cabe ali, na esquina.
Já fui imortal, invencível.
O mundo cabia na minha mão.
Andei por muitos caminhos.
Mas, sem querer , sem saber ,
Desci a rua, todos os caminhos
Levaram-me na busca da esquina.
Um lugar sagrado,momento especial.
Na dispersão, ficaram fragmentos.
No olhar mudo, risadas sem motivos.
Tudo era azul, como o céu e o mar.
A esquina era ali e eu não via.
Lutei para não ser profunda, visceral.
Ri dos próprios defeitos, sem conselho.
Nada traçado. Ri dos tropeços.
Não quis ser adulta, vi as coisas
Como são:passageiras. Pedi arrego.
Sorri.De mim e do mundo.
Lutei pra meu mundo não ficar cinza.
Em mundo pleno
De engenharia das traições.
Escolher alguém sem desvendar
A vida inteira.
Em propulsão silenciosa (feminina?)
Aceitei-me do jeitinho que sou.
Como presente, comum, entre tantas,
Sem pretensão de ser perfeita.
Indivisível,
Escondida na emoção.
Fui nuvem, busquei esperança
E a mantive. Criei alternativa.
Tentei, tentei...
Marquei encontro diário.Sou cedro.
Um beija-flor invadiu minha casa.
Arlinda Lamêgo
:: 12 de agosto, 2004 ::
Se amanhecesse agora eu

Se amanhecesse agora
eu continuaria como estou.
não mexeria nada,
não abriria os olhos,
manteria a sensação do teu abraço,
do teu beijo leve...
de nós,igual ao bolero de Ravel,
nos repetindo,indefinidamente.
Aqui fico,no céu desta noite sem estrelas,
brilhando,solitária,para espanto da noite,
explodindo em gozos tardios,
porque não quero ver o dia
que mostra tua falta,
tua ausência....
Dânae
(www.versoexplicito.blogger.com.br)
:: 10 de agosto, 2004 ::
Fotografia

Não pareço mais comigo
Pedaços de mim se perderam
Enquanto o tempo, absorto, passava
E eu, sem estar em mim, nem via...
Não me pareço mais com aquilo
Que eu mais parecia
Hoje me mostro muito
Nas linhas onde eu me escondia.
E quieto observo a decadência.
Dos músculos, das massas, das mãos vazias.
Hoje eu sofro muita a influência
Das verdades que eu defendia
Não envelheci na face o quanto envelheci
Na alma, órfã de alegria, e não me resta
muita coisa, a não ser alguns versos
E um riso antigo que insiste nesta fotografia.
Tonho França.
:: 07 de agosto, 2004 ::
Vento

então fiquei muda
por muito tempo
às vezes tocava
meu pequeno sino
de amealhar palavras
fechava os olhos
e fabricava delírios
na casa e nos espelhos
eu não me reconhecia
eu era um vôo murmurado
estou cansada
me ajoelho no fundo
da caverna
as mãos espalmadas
para que venha o vento
Roseana Murray
:: 05 de agosto, 2004 ::
PENSO...

Quando penso
que já sei tudo,
depois de tantos dias,
tantas caminhadas,
tanta vivência...
Depois de tantas noites,
tantos sonhos,
tanto sentimento...
Penso que tudo sei
e quanto mais eu penso,
mais eu sei o quanto esse tudo é nada
e ao pensar
descubro quão importante é o pensamento,
a definição de mim,
a revelação do universo,
o fervilhar do descontentamento,
da evolução insignificante,
repetitiva e irrelevante,
dum saber deslizante
como a água
que só tem essência
no seu movimento
e parando...sabendo,
é tão estéril
como o lodo dum charco.
Por isso prefiro não saber,
correndo em busca do mar da vida
Manuel Neves
:: 02 de agosto, 2004 ::
A Outra Vida

Não espero outra vida, depois desta.
Se esta é má
Por que não bastará aos deuses, já,
A pena que sofri?
Se é boa a vida, deixará de o ser,
Repetida.
Cassiano Ricardo
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