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:: 31 de março, 2004 ::

Viver

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Viver pra fora é voar,
mergulhar tenro e macio,
espreguiçar no teu cio
um toque buscando vãos,
como esvoaçar de ninfetas
e dança de borboletas.

Viver pra dentro é voltar,
ao começo num tropeço,
mergulhar vermelho em ti mesmo,
vestir-te de ti pelo avesso,
arrancando espinho a esmo,
pisando com todo peso
os calos do coração

Elane Tomich



:: 29 de março, 2004 ::

Pedido de Adoção

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Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
Adélia Prado



:: 28 de março, 2004 ::

EFÊMERO.

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Se pudéssemos ter consciência
do quanto nossa vida é efêmera,
talvez pensássemos duas vezes antes de jogar fora
as oportunidades que temos de ser
e de fazer os outros felizes.
Muitas flores são colhidas cedo demais.
Algumas, mesmo ainda em botão.
Há sementes que nunca brotam e há aquelas flores
que vivem a vida inteira até que, pétala por pétala,
tranqüilas, vividas, se entregam ao vento.
Mas a gente não sabe adivinhar.
A gente não sabe por quanto tempo
estará enfeitando esse Éden e tampouco
aquelas flores que foram plantadas ao nosso redor.
E descuidamos. Cuidamos pouco. De nós, dos outros.

Nos entristecemos por coisas pequenas
e perdemos minutos e horas preciosos.
Perdemos dias, às vezes anos.
Nos calamos quando deveríamos falar;
falamos demais quando deveríamos ficar em silêncio.
Não damos o abraço que tanto nossa alma pede
porque algo em nós impede essa aproximação.
Não damos um beijo carinhoso
"porque não estamos acostumados com isso"
e não dizemos que gostamos
porque achamos que o outro sabe
automaticamente o que sentimos.

E passa a noite e chega o dia,
o sol nasce e adormece e continuamos os mesmos,
fechados em nós.
Reclamamos do que não temos,
ou achamos que não temos suficiente.
Cobramos. Dos outros. Da vida. De nós mesmos.
Nos consumimos.
Costumamos comparar nossas vidas
com as daqueles que possuem mais que a gente.
E se experimentássemos nos comparar
com aqueles que possuem menos?
Isso faria uma grande diferença!
E o tempo passa...

Passamos pela vida, não vivemos.
Sobrevivemos, porque não sabemos fazer outra coisa.
Até que, inesperadamente,
acordamos e olhamos pra trás.
E então nos perguntamos: e agora?
Agora, hoje, ainda é tempo de reconstruir
alguma coisa, de dar o abraço amigo,
de dizer uma palavra carinhosa,
de agradecer pelo que temos.
Nunca se é velho demais ou jovem demais
para amar, dizer uma palavra gentil
ou fazer um gesto carinhoso.
Não olhe para trás.
O que passou, passou. O que perdemos, perdemos.
Olhe para frente!
Ainda é tempo de apreciar as flores
que estão inteiras ao nosso redor.
Ainda é tempo de voltar-se para Deus
e agradecer pela vida,
que mesmo efêmera, ainda está em nós.
Pense!...Não o perca mais!..."

Letícia Thompson



:: 27 de março, 2004 ::

Coragem

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É preciso coragem...
Pra viver a vida,
Pra curar as feridas,
Pra existir.
É preciso coragem...
Pra comprar passagem,
Pra seguir viagem,
Pra sorrir.
É preciso coragem...
Pra amar,
Pra chorar,
Pra sofrer,
Pra desejar.
É preciso coragem...
Pra lutar,
Pra perder,
Pra ganhar.
É preciso coragem...
Pra construir,
Pra persistir,
Pra conquistar.
É preciso coragem, é preciso sim...
Pra parar,
Pra pensar,
Pra aceitar que se deve ter coragem... de ser
feliz!
(autor desconhecido)



:: 26 de março, 2004 ::

Haver

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Resta,acima de tudo,essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai:eles não tem culpa de ter nascido.

Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior ante diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinicius.

Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhando
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração,essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade,
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionante e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que as vezes os poetas tomam por esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade,sem história.
Resta essa pobreza intrinseca,esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão de seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir,quando,emocionada
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.

Vinicius de Moraes



:: 24 de março, 2004 ::

Tateando Caminhos

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passo as mãos no rosto
debaixo da minha pele
quem é esse ser que me habita
tão envolto em penumbras
qual cigana em seus panos ?
que mulher é essa
fazendo de mim labirintos
como um peixe no oceano?
passo as mãos no rosto
feito um louco em seu passado
e nem me decifro nem me devoro
abro a janela e bebo a manhã
em grandes goles

Roseana Murray



:: 22 de março, 2004 ::

Aguas De Março

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22 MARÇO: DIA MUNDIAL DEDICADO À PRESERVAÇÃO DAS ÁGUAS

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

Tom Jobim



:: 21 de março, 2004 ::

CANÇÃO DE OUTONO

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O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colhe as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!

Mario Quintana



:: 20 de março, 2004 ::

Espelhos Paralelos

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Não te prevejo
porque nem sei de mim
não te conheço

Conduz-me na procura,
nesse revelar-se
de tudo o que surge
entre os papéis expostos.

Resto-me a mim
e não me sei.

Toma a minha mão.

(João Domingues Maia)



:: 18 de março, 2004 ::

Bucólico

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Flácida e preguiçosa,
a tarde escorrega
e se esfrega em minha perna.
Faz-se eterna
nas linhas de um poema.
A tarde-tema
boceja um sono cor-de- rosa

Flora Figueiredo



:: 16 de março, 2004 ::

Desatino

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Você me faz perder
a pose
a calma
o sono...
Você me faz perder
a hora
o trem
a sorte

Você me faz perder
o rumo
o prumo
o tino.....

Rosangela Maluf



:: 14 de março, 2004 ::

Ao Som da Poesia

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Habita em mim uma poeta diferente
uma artista delinqüente
porque a inspiração só consegue me invadir
quando alguma música começo a ouvir

É nesse momento então
que sento-me em meu piano de cauda
e vou tocando as minhas palavras

Sim, eu não as escrevo
eu simplesmente as toco
e em teclas macias
transformo meus sentimentos em poesia

Ora componho sobre o amor
ora sobre a saudade
ora sobre a tristeza
ora sobre a amizade
e cada acorde musical
faz de mim essa poeta original
que busca em tantas situações
as suas inspirações

Além de tudo isso
eu ainda necessito
da partitura
em forma de imagem, envolta no arco-íris
que se transforma na moldura
da poesia que estou a dedilhar
e que pra longe de mim
consegue me levar


Existe sonoridade no que eu escrevo
notas musicais
dó ré mi fá sol lá si
por isso aprisiono-me aqui
tentando compor
em nome do amor
ao som de valsas e boleros
e é só isso que eu quero
só disso que preciso

Do contrário minha poesia vai virar rabisco
vai esvaziar
e sem rumo, sem direção, se acabará
enquanto minhas composições
distantes das teclas da emoção
imperceptíveis ficarão.

Silvana Duboc



:: 12 de março, 2004 ::

VIVER É DIFERENTE DE SOBREVIVER

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É triste ver tanta gente lutar para sobreviver.
E não estou falando apenas daqueles que ganham salário mínimo,
mas de executivos que vivem angustiados com tantas pressões, de empresários que fogem de suas famílias, pois não aprenderam a amar, de pessoas de todos os níveis sociais que estão sempre assustadas perante a vida.

São pessoas que não vivem. Apenas sobrevivem, como se estivessem numa
crise asmática permanente: aquela eterna falta de ar e, de vez em quando, o
alívio rápido e passageiro.
Logo depois sentem de novo o sufoco insuportável.
Essas pessoas não vivem, sobrevivem.
E apenas sobreviver é trabalhar em algo sem sentido só para manter o salário;
é fazer joguinhos de poder para manter o emprego;
é sair com alguém que não se ama somente para aplacar a solidão;
é ter relações sexuais só para manter o casamento;
é não conseguir desgrudar os olhos da TV,
com medo de escutar a voz da consciência;
é ter de tomar alguns drinques para conseguir voltar para casa.

A sociedade nos pressiona diariamente para nos transformar em máquinas.
Todos os dias, pela manhã, uma multidão liga seu corpo como
se fosse mais uma máquina e sai pela porta para uma repetição infinita
de ações rotineiras sem nenhuma relação com sua vocação e seu talento.
E muita gente chama a isso livre-arbítrio.

Depois vão a massagens, saunas, fazem um monte de ginástica em busca
de um pouco de energia extra para, no dia seguinte, voltar a fazer o mesmo
trabalho que não tem nenhuma relação com sua alma.

Muitos estados de depressão são, na realidade,
frutos de uma terrível sensação de inutilidade.
Esse olhar vago do deprimido é muitas vezes o
olhar de quem poderia ter aproveitado as oportunidades da vida,
mas não soube valorizar o que era realmente importante.

Se, por acaso, você se identificou com a descrição acima, está na
hora de mudar. O filósofo espanhol Julián Marías escreveu que a
infelicidade humana está em não preferir o que preferimos.
Quando uma pessoa não prefere o que prefere, acaba se traindo.
As escolhas de nossa vida têm sempre de privilegiar a nossa essência.
Nossa vocação não tem nada a ver com ações sem afeto.

O ser humano nasceu para realizar a sua vocação divina. No entanto,
quantas vezes acabamos nos dedicando exclusivamente à sobrevivência!

Sobreviver e viver são experiências completamente distintas.
Viver é ser dono do próprio destino. É saber escrever o roteiro da própria
vida. É ser participante do jogo da existência, e não mero espectador.
É viver as emoções, é ter os próprios pensamentos e viver os seus
sonhos.

Sobreviver é administrar o tempo para que o dia acabe o mais rápido
possível. É conseguir ter dinheiro até o próximo pagamento.
É respirar de alívio porque chegou o final do expediente.
É ir resignado de casa para o trabalho e do trabalho para casa.
É adiar o máximo possível as mudanças para não ter de arriscar nada...

Chega de migalhas da vida!
Chega de viver como um fugitivo,
olhando para os lados, com medo de tudo e de todos!
O ser humano merece mais do que simplesmente completar seus dias.
Merece a plenitude da vida.

Roberto Shinyashiki



:: 11 de março, 2004 ::

A vida ensina

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Se você pensa que sabe;
que a vida lhe mostre o quanto não sabe.

Se você é muito simpático mas leva
meia hora para concluir seu pensamento;
que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema,
aquele que começa pelo fim.

Se você faz exames demais;
que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta:
se procurar demais, acaba achando.

Se você pensa que os outros
é que sempre são isso ou aquilo;
que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.

Se você pensa que viver é horizontal,
unitário, definido, monobloco;
que a vida lhe ensine a aceitar o conflito
como condição lúdica da existência.

Tanto mais lúdica quanto mais complexa.
Tanto mais complexa quanto mais consciente.
Tanto mais consciente quanto mais difícil.
Tanto mais difícil quanto mais grandiosa.

Se você pensa que disponibilidade com paz
não é felicidade;
que a vida lhe ensine a aproveitar
os raros momentos em que ela (a paz) surge.

Que a vida ensine a cada menino
a seguir o cristal que leva dentro,
sua bússola existencial não revelada,
sua percepção não verbalizável das coisas,
sua capacidade de prosseguir
com o que lhe é peculiar e próprio,
por mais que pareçam úteis e eficazes
as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais,
embora façam aparente sentido
e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.

Que a vida nos ensine, a todos, a nunca
dizer as verdades na hora da raiva.

Que desta aproveitemos apenas
a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos
revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois.
Que a vida ensine que tão ou mais difícil
do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto que não come, coma.
Que aquele que mata, não mate.
Que aquela timidez do pobre passe.
Que a moça esforçada se forme.
Que o jovem jovie.
Que o velho velhe.
Que a moça moce.
Que a luz luza.
Que a paz paze.

Que o som soe.
Que a mãe manhe.
Que o pai paie.
Que o sol sole.
Que o filho filhe.

Que a árvore arvore.
Que o ninho aninhe.
Que o mar mare.
Que a cor core.

Que o abraço abrace.
Que o perdão perdoe.
Que tudo vire verbo e verbe.
Verde. Como a esperança.

Pois, do jeito que o mundo vai,
dá vontade de apagar
e começar tudo de novo.
A vida é substantiva,
nós é que somos adjetivos.

Arthur da Távola



:: 08 de março, 2004 ::

Mulheres

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Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.

Pablo Neruda



:: 07 de março, 2004 ::


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:: 05 de março, 2004 ::

Fagulhas

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Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

ANA CRISTINA CÉSAR



:: 03 de março, 2004 ::

O FOTÓGRAFO

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Pra rir um pouquinho

Em um determinado país foi criado um programa de incentivo à natalidade, pois o número de habitantes estava caindo e a proporção de idosos crescia assustadoramente.
Necessitando de mão-de-obra, o governo decretou uma lei que obrigava os casais a
terem um certo número de filhos. Previa também uma tolerância de cinco anos após o casamento, fim dos quais,o casal deveria ter pelo menos um pimpolho. Aos casais que no fim do prazo não conseguissem ter um filho, o governo destacaria um agente auxiliar para
que a criança fosse gerada.
Neste cenário se deu o seguinte diálogo entre um casal:
MULHER: Querido, completamos hoje 5 anos de casamento!
MARIDO: É... e infelizmente não tivemos nenhum filho.
MULHER: Será que eles vão mandar o tal agente?
MARIDO: Não sei... talvez mandem.
MULHER: E se ele vier?
MARIDO: Bem, eu não posso fazer nada.
MULHER: E eu, menos ainda...
MARIDO: Vou sair, já estou atrasado para o trabalho...
Logo após a saída do marido, bateram à porta:
TOC, TOC, TOC!!!! A mulher abriu e encontrou um homem de boa aparência à espera. Tratava-se de um fotógrafo que saiu para atender um chamado de uma família que
queria fotografar sua criança recém-nascida, mas que por um engano, errara o endereço procurado.
E o diálogo se seguiu:
HOMEM: Bom dia! Eu sou...
MULHER: Ah, já sei! Pode entrar.
HOMEM: Obrigado. Seu esposo está em casa?
MULHER: Não. Ele foi trabalhar.
HOMEM: Presumo que esteja a par.
MULHER: Sim, ele já está sabendo de tudo. Eu também concordo.
HOMEM: Ótimo. Então vamos começar.
MULHER: Mas já? Tão rápido...
HOMEM: Preciso se breve, pois tenho ainda 16 casas para visitar.
MULHER: Minha nossa! O senhor agüenta?
HOMEM: O segredo é que eu gosto do meu trabalho, me dá muito prazer!
MULHER: Então vamos começar. Como faremos?
HOMEM: Permita-me sugerir: uma no quarto, duas no tapete, duas no sofá.
MULHER: Serão necessárias tantas?
HOMEM: Bem, talvez possamos acertar na mosca já na primeira tentativa...
MULHER: O senhor já visitou alguma casa neste bairro?
HOMEM: Não, mas tenho comigo algumas amostras do meu trabalho (mostrou algumas fotos de crianças). Não são lindas??
MULHER: Como são belos estes bebês! Foi o senhor mesmo quem fez?
HOMEM: Sim. Veja esta aqui, por exemplo, foi conseguida na porta do supermercado.
MULHER: Que horror! O senhor não acha muito público?
HOMEM: Sim, mas a mãe queria muita publicidade.
MULHER: Eu não teria coragem!!!
HOMEM: Esta aqui foi em cima do ônibus.
MULHER: Cacilda!!!
HOMEM: Foi um dos serviços mais difíceis que já fiz.
MULHER: Claro, eu imagino!
HOMEM: Esta foi feita no inverno, em um parque de diversões.
MULHER: Credo! Como o senhor conseguiu? Não sentiu frio?
HOMEM: Não foi fácil! Como se não bastasse a neve caindo, tinha uma multidão em volta. Quase não consegui acabar.
MULHER: Ainda bem que sou discreta, e não quero ninguém nos olhando.
HOMEM: Ótimo, eu também prefiro assim. Agora, se me dá licença, eu preciso armar o tripé.
MULHER: Tripé?!!!
HOMEM: Sim madame, pois o negócio, além de pesado,depois de armado mede quase um metro.
A mulher desmaiou...



:: 02 de março, 2004 ::

Versos na Madrugada

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Hoje percebo como tudo aconteceu
entre você e eu.

Fui estrela a lhe iluminar
das trevas consegui lhe resgatar
e você foi minha escuridão.

Hoje eu sei como tudo se deu
lhe amei em meio a minha solidão.

Silvana Duboc



:: 01 de março, 2004 ::

...

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