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:: 28 de fevereiro, 2004 ::
Papagaio Gaio

Papagaio insensato,
que te fêz assim?
Que não sabes falar
brasileiro
e já sabes latim?
Papagaio insensato,
ave agreste, do mato,
que diabo em ti existe,
verde-gaio,
que nunca estás triste?
Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?
Papagaio triste,
papagaio gaio,
quem te fêz tão triste
e tão gaio,
triste mas verde-gaio?
Papagaio gaio,
quem te ensinou,
em mais
do mato, a repetir,
papagaio,
tanto nome feio?
Gaio papagaio,
gaio, gaio, gaio,
que repetes tudo...
Antes fosses
um pássaro mundo.
Papagaio do mato,
se nunca estás triste,
quem foi que te ensinou,
por maldade,
a palavra saudade?
Papagaio gaio.
Gaio, gaio, gaio.
Cassiano Ricardo
:: 27 de fevereiro, 2004 ::
QUEBRAR REGRAS

Antes que a noite se cale,
Em uma noite de brumas,
Ou, quem sabe, em dia cinza.
Nas tramas enoveladas,
Como um pássaro, eu vou.
Semeei meus sonhos
E chorei minhas lágrimas.
Vi, em janelas enormes,
Filmes lindos,
Onde inseri meus versos.
Adotei as cores do sol,
Nos dias alegres.
Pedi à lua e às estrelas
Para comigo sorrirem.
Tive carinho com as pessoas.
Algumas vezes, usei couraça.
Vivi como aprovei.
Derrubei tabus.
Minha alma se mesclou.
Por que não calar
Em um lindo dia de verão?
Por que não quebrar regras?
Arlinda Lamêgo
:: 26 de fevereiro, 2004 ::
:: 25 de fevereiro, 2004 ::
As Estrelas

Foram-se abrindo aos poucos as estrelas...
De margaridas lindo campo em flor!
Tão alto o Céu!...Pudesse eu ir colhê-las...
Diria alguma se me tens amor.
Estrelas altas! Que se importam elas?
Tão longe estão...Tão longe deste mundo...
Trêmulo bando de distantes velas
Ancoradas no azul do céu profundo...
Porém meu coração quase parava,
Lá foram voandoas esperanças minhas
Quando uma,dentre aquelas estrelinhas,
Deus a guie! do céu despencou...
Com certeza era o amor que tu me tinhas
Que repentinamente se acabou !
Mário Quintana (1934)
:: 23 de fevereiro, 2004 ::
nas tardes quentes nada

nas tardes quentes
nada mais a fazer:
esquecer as mãos
aquietadas como aranhas
e amarrar o silêncio
à pura solidão
do silêncio
Olga Savary
:: 21 de fevereiro, 2004 ::
E o tempo tomou

E o tempo tomou forma. Assim me soube
Envolta em grande mar até a cintura
E nada a não ser água e seu rumor
Aos ouvidos chegava. E soube ainda
Que um só gesto e sopro acrescentava
Essa vastíssima matéria. E atenta
Em consideração a mim, cobri-me de recuos.
Eu, que de docilidade me fizera.
Antes avara desse tempo que resta.
Se em muitos me perdi, uma que sou
É argamassa e pedra. Guardo-te a ti.
Em consideração a mim. Redescoberta.
Hilda Hilst
:: 19 de fevereiro, 2004 ::
Hoje é o momento

Hoje é o momento ideal pra falar de sacanagem.
Mas nada de ménage à trois, sexo selvagem
e práticas perversas, sinto muito.
Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente.
Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer,
só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.
Não nos contaram que amor não é acionado nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma
laranja,
e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida
merece carregar nas costas a responsabilidade de completar
o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um",
duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava
Não nos contaram que isso tem nome: anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria
é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório
e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados,
que os que transam pouco são caretas,
que os que transam muito não são confiáveis,
e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.
Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz,
a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas,
são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.
Ah, nem contaram que ninguém vai contar.
Cada um vai ter que descobrir sozinho.
E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo,
vai poder ser muito feliz se apaixonar por alguém.
Martha Medeiros
:: 17 de fevereiro, 2004 ::
:: 16 de fevereiro, 2004 ::
Altos e baixos

Altos e baixos
Amor X ódio
Guerra X paz
Vida X morte
Julgamentos distintos
Certeza eterna
Alegria e saudade
O encanto ótico tomou o pranto exótico
Sede de mundo
Sede de vencer
Gritar pro mundo
que essa merda de preconceito
só existe em mentes desnudas
pseudo-formadas
- não, ser humano!
Tecnologia avançada
Vida por nada, juventude drogada
Ana Lucia
:: 14 de fevereiro, 2004 ::
Carta

Uma carta de amor
de quem escreve com paixão
- ou compaixão -
é sempre uma carta de amor
em papel ou guardanapo
com rimas ou com dor
na alegria ou na tristeza
é uma carta de amor
em suma,me diga:
não te disse? não suma
Pedro Tostes
:: 11 de fevereiro, 2004 ::
Basta

Não quero mais o eterno,
Bastam-me horas,
Não quero mais o sereno,
Farta-me o insano.
Não espero mais nada de certo,
Aposto no engano
Barroca alma
Sem paz,sem calma
Não cabe mais no corpo
Explode pelos poros.
Hoje,prefiro soltar-me à deriva
A ver-me preso ao mesmo porto
Acredito mais na beleza da lenda
Que na dureza da fé.
Acredito em sonhos,que movem,
Invisíveis,os moinhos da vida
E criam histórias,fantasmas,heróis,amores
Sempre foi assim
Não importa o que foi escrito pelo destino
O improviso são as flores
Ele muda o caminho
Tonho França
:: 10 de fevereiro, 2004 ::
...
:: 07 de fevereiro, 2004 ::
A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector
:: 06 de fevereiro, 2004 ::
:: 05 de fevereiro, 2004 ::
Lobos? São muitos. Mas
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Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
Hilda Hilst
:: 03 de fevereiro, 2004 ::
Dá-me a tua mão

Parceria: Antônio Damázio
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
:: 02 de fevereiro, 2004 ::
Poema para os gatos

Silêncio,
eis a tarefa
de todos os gatos.
Poucos sabem perscrutar
(talvez ninguém em plenitude)
o grau de solidão necessária
ao saber auto suficiente
para ser felino e doméstico
em sua tarefa de monge
guardião do inextricável
em quem o homem não percebe
a metafísica natural,
recolhimento
saber
sensualidade
e aceitação.
Artur da Távola
:: 01 de fevereiro, 2004 ::
O RELÓGIO

Diante de coisa tão doída
Conservemo-nos serenos
Cada minuto de vida
Nunca é mais, é sempre menos.
Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser
Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer.
Cassiano Ricardo
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