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:: 29 de janeiro, 2004 ::
DONA VIDA

Quando eu pensava
que tudo já havia estabilizado
que meu coração já estava resguardado
de alguma nefasta surpresa
ou de uma dolorida decepção
veio a dona vida
e de novo atingiu meu coração.
Com sua lâmina afiada
em pedaços o deixou
e agora tentando juntá-los estou.
Tem uma parte aqui, outra ali
e manchas de sangue que tendem a coagular.
Tem partes do meu coração por todo lugar.
Não espero consideração
de quem ousou me magoar
nem o perdão nesse momento quero dar
eu preciso apenas desabafar
os pedaços desse meu coração catar
e um no outro tentar costurar.
Afinal é essa minha colcha de retalhos
vermelha e em frangalhos
que me permite viver
por isso os remendos necessários
preciso urgentemente fazer.
Silvana Duboc
:: 28 de janeiro, 2004 ::
:: 27 de janeiro, 2004 ::
O amor no éter

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde
Adélia Prado
:: 26 de janeiro, 2004 ::
Caminho pelo acaso dos

Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,
olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe:
medusas da alta noite e espumas breves.
Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,
vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.
Êxtase longo de ilusão nenhuma.
Cecília Meireles.
:: 24 de janeiro, 2004 ::
Fax

Avise ao mundo que estou para chegar
Peça a ele para guardar
um pedaço do azul de amanhã cedo,
que a nuvem vai crescendo
e eu tenho medo;
para aguar as flores que puder salvar
do corte da enxada e seus horrores;
adoçar o bico da passarinhada
que ainda tiver chance de voar,
(do pavão ao tico-tico).
Parece que o sol anda pleiteando uma polida
para me dar como presente a luz do dia.
Não sei se tenho esse direito,
mas já que venho,
bem gostaria.
Se conseguir achar um tanto de água pura,
que a deixe preservada
para eu poder ver como se lava a febre,
como se embebe a racha da secura.
Segure um resto de manhã,
que acorda com seu perfume de roseira,
saborosa de alecrim.
Não sei quanto tempo vão deixar isso pra mim,
até que a terra escureça inteira
ou que a beleza embace por completo.
Mas ,vou chegando de qualquer maneira.
Se me vê inquieto,
é pelo prenúncio da chegada,,já tão perto.
Para garantir a minha entrada
nesse ato louco,nesse palco incerto,
estou contando ansiosamente com você.
Até daqui a pouco.
Um bebê
Flora Figueiredo
:: 23 de janeiro, 2004 ::
Canto do Meu Canto

Escrevi no chão do outrora
e agora me reconheço:
pelas minhas cercanias
passeio, mal me frequento.
Mas pelo pouco que sei
de mim, de tudo que fiz,
posso me ter por contente,
cheguei a servir à vida,
me valendo das palavras.
Mas dito seja, de uma vez por todas,
que nada faço por literatura,
que nada tenho a ver com a história,
mesmo concisa, das letras brasileiras.
Meu compromisso é com a vida do homem,
a quem trato de servir
com a arte do poema. Sei que a poesia
é um dom, nasceu comigo.
Assim trabalho o meu verso,
com buril, plaina, sintaxe.
Não basta ser bom de ofício.
Sem amor não se faz arte.
Trabalho que nem um mouro,
estou sempre começando.
Tudo dou, de ombros e braços,
e muito de coração,
na sombra da antemanhã,
empurrando o batelão
para o destino das águas.
(O barco vai no banzeiro,
meu destino no porão.)
Nada criei de novo.
Nada acrescentei às forma
tradicionais do verso.
Quem sou eu para criar coisas novas,
pôr no meu verso, Deus me livre, uma invenção.
Thiago de Mello
:: 22 de janeiro, 2004 ::
Lamparina
Mais que promessa de luz
ardendo secreta
lamparina de quebrar a noite
geografia oculta de água
e cristal
poesia é pano de forrar
a alma
no meio do vendaval
Roseana Murray
:: 20 de janeiro, 2004 ::
Me leve (Cantiga Para Não Morrer)

Quando voce for embora,
moca branca como a neve,
me leve, me leve ...
Se acaso voce não possa,
me carregar pela mão
menina branca de neve,
me leve no coração
Se no coração nao possa,
por acaso, me levar
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se ai tambem não possa,
por tanta coisa que leve ja viva em seu pensamento,
moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento
Me leve ... me leve ...
Ferreira Gullar
:: 17 de janeiro, 2004 ::
As águas

Quando pensei que tinha chegado
era outra surpresa,
era mais uma curva no rio.
Quando calculei que tudo estava pago
havia ainda juros
do tempo do esforço
do amor
Quando achei que estava acabado
os caminhos se espalmaram
como dedos da mão
de um deus,
na torrente no vento
no sopro do universo
Lya Luft
:: 14 de janeiro, 2004 ::
Meus amigos Me sinto na
Meus amigos
Me sinto na obrigação de dar satisfação pelo meu sumiço.
O motivo não foi férias não,antes fosse.
Acontece que meu marido após um resfriado brabo,teve
pneumonia e teve que ser internado e eu estou com ele
tempo integral.
Assim que eu puder eu volto.
Beijos a todos
:: 07 de janeiro, 2004 ::
Vida da minha alma:

Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças
Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.
Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.
Hilda Hilst
:: 06 de janeiro, 2004 ::
Vida

Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.
Ah ! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas
de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa,
alí um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida ...
Meu Deus ,que modo estranho de contar uma vida !
Mário Quintana
:: 05 de janeiro, 2004 ::
Paisagem na Neblina

O vento brando e breve
soprou sobre o monjolo
que, em movimento,
cobriu as franjas do passado
névoas,
nódoas,
nuvens,
nadas
E veio a bruma,
acabrunhada
Fabrício Marques
:: 04 de janeiro, 2004 ::
Forasteiro (Irreal)

No domingo ele chega
Vindo do nada, sorri
Na segunda ele me beija
Na terça me afaga as mãos
Na quarta vem me abraçar
Na quinta ele vai embora
Na sexta diz que vai voltar
No sábado não me responde
Insisto, não quer falar
No domingo não retorna
Na segunda... quero acordar...
Rosângela Maluf
:: 02 de janeiro, 2004 ::
A Rua

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.
Cassiano Ricardo
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