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:: 11 de maio, 2008 ::

Mãe permanente

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Abrigo perfeito
De todo jeito
Calor!
Ter no corpo
Outro corpo
Amor!
Antes e depois
Agora dois
Mãe!
Calor de sempre
Amor constante
Mãe permanente

Celito Medeiros



:: 10 de maio, 2008 ::

VIDA É CONFLITO

Quanto mais vivo, mais me convenço de que viver é a possibilidade de se aprender a compreender e a enfrentar conflito. Vida é conflito, e conflito não quer dizer briga, como se diz. Conflito é luta consigo mesmo.
O que tem solução não é conflito: é problema, impasse. O conflito é um complexo de conteúdos, que perduram além e adiante da solução, e que aumentam tanto quando há, como quando não há solução.
O conflito é, pois, um enigma existencial! Nunca tem resposta total, por isso vida é drama.
Drama é se viver na impossibilidade de solucionar a maioria dos conflitos que nos cercam. O mito é o material interno do conflito, a lavrar-lhe no íntimo, impossível de apreensão ou compreensão plenas.
Desafiado pelo conflito, o ser humano empreende a tentativa de solução, pois foi dotado de uma mente que também é lógica e racional, e, entre as suas imperfeições, possui a de não conseguir conviver com a dúvida.
O homem é um ser que não consegue viver com o que lhe é matéria-prima: a dúvida. Porém sem ela não vive, vegeta.
Não há, pois, solução - a não ser parcial - para os conflitos. A vida é a sucessão deles e quanto mais o ser consiga a contrição e a auto-reflexão, iluminar-se-á em cada fase e se enriquecerá de dúvida, de impasse e de suplício, transformando sua existência numa luta rica.
Compreender a dificuldade e a impossibilidade de plenitude em qualquer resposta é descobrir o caminho da existência madura, forte, porque capaz de enfrentar a certeza de que vida é drama e suplício (não no sentido de sofrimento ou martírio, mas de trabalho existencial e tarefa de conviver com o conflito).
Fazê-lo (ao conflito) parte do ser é única maneira de minimizar seus efeitos e enriquecer-se com suas verdades contraditórias.
É da capacidade de enfrentar todas as dores da verdade que fazemos a "corrente sem elos" de nosso amadurecimento, o que não quer dizer que solucionamos nossos conflitos e, sim, que temos a coragem de neles mergulhar para melhorarmos, doendo. ao mesmo tempo em que descobrindo as felicidades possíveis.

Artur da Távola



:: 28 de abril, 2008 ::

Paisagem Urbana

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Num ponto qualquer da cidade
trêfego
trôpego
sôfrego
bêbado.
Ele tem medo da sobriedade

Flora Figueiredo



:: 13 de abril, 2008 ::

Beijo-flor

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O beijo é flor no canteiro ou desejo na boca?
Tanto beijo nascendo e colhido na calma do jardim
nenhum beijo beijado (como beijar o beijo?)
na boca das meninas e é lá
que eles estão suspensos invisíveis.

Carlos Drummond de Andrade



:: 22 de março, 2008 ::

ODE À ÁGUA

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Quisera ser a Água.
não ter o prejuízo da forma,
pra poder compreender todas as formas,
cor nem cheiro,
para impregnar-me de todas as cores da Terra
e de todos os perfumes das matas e dos campos.

A Água fotografa na retina móvel
lava na alma compassiva
as grandezas e misérias da Terra.
A Água quando se turva
é num segredo de útero
para o gesto dos peixes e das algas,
quando se salga
é a grande lágrima do Mundo — o Mar
Sangue nas veias do Planeta,
a Água rios flui. Vai sem pergunta,
sem plano e sem mealheiro.
Existe, e é útil: compre o seu destino.
Sabe que a espera o Mar.

Também sabemos
que nos espera um Mar.
Mas a Água sabe mais que nós:
o de que esquivamos nosso olhar:
que toda ela é o Mar.
E sobretudo sabe
que há de ir e de voltar
até a consumação dos ciclos.
Nem se lamenta. Sabe
que não há o que lamentar.

No Mar!...
Ah música de espumas!
No Mar!...
Ah vinhos de marulhos!
Ah conchas de silêncio!
Ah solidão do todo!
No Mar!...
E o Grande Coração bombeia as águas
para as artérias do ar.

A Água quando se eleva
não sabe de orgulho, nem de mesquinha altura.
Sabe a fortuna dos ventos,
a fecundidade das trevas.
E cumpre a Lei. Rosa
de nuvens
dá-se.

Água:
Vida que ao Sol nos move
e me comove.

Anderson Braga Horta



:: 14 de março, 2008 ::


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Poesia não tem tempo
Pois o próprio tempo é a poesia
Existe...Resiste ao tempo passante
Está no coração gigante e
Na alma do poeta
Sobrevivendo nas cores
Expressada dos amores!
Espalhadas em versos
Nos poemas vão cantando
Pelos cantos deste mundo
Nas asas do vento soprando...
As dores ...Em um verso chorado
Escondendo entre as flores
Que no fundo todo poeta
Morre de amores...Alucinantes
Mas renasce igual a fênix
A cada amor encontrado
Alcançando nos escritos
As sombras de amores passados
E assim vão poetando
A poesia renascendo
A cada tempo de um tempo
Onde a poesia é eterna!
Vive aqui
Vive acolá
E sempre viva será

THAIS



:: 07 de março, 2008 ::

Poemas para todas as mulheres

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No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!

Vinícius de Moraes



:: 02 de março, 2008 ::

Piano

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Na sala de estar, de tempos idos
lembro teu rosto, tua mão ao piano
o som enchia o ambiente
até os lustres, as cortinas, algumas antigüidades
tomavam um brilho diferente.
Eu sentava na cadeira, repousava minha história
imaginava, quando menino, feliz na sala
a dança harmônica da minha memória.
Hoje no recluso que vivo, resta uma tela
que isso retrata de forma especial
nunca mesmo que contasse, não entenderiam
o que sai junto ao som que toda noite
ao meu silêncio, emocionado, declamo
partituras e a própria vida
que brotavam do teu piano.

Tonho França.



:: 27 de fevereiro, 2008 ::


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Se o coração devassasse os mistérios
e conhecesse a origem da vida,
tal qual é, na realidade,

ele decifraria também,
após a morte,
o enigma dos deuses.

Homem,
das existências no Universo
tu nada sabes,
embora ainda estejas animado
pela força da tua alma.

Que poderás tu saber
amanhã,
quando morreres,
e a tua alma morrer contigo?

Amanhã,
quando acabares,
e tudo acabar,
para sempre,
para sempre?

Omar Khayyam



:: 19 de fevereiro, 2008 ::

Prece

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Senhora
das feras
e esferas

Senhora
do sangue
e do abismo

Senhora
do grito
e da angústia

Senhora
noturna
e eterna

- escuta-nos

Orides Fontela